TECNOLOGIA, INCLUSÃO E CIDADES: O DESCOMPASSO ENTRE INOVAÇÃO URBANA E JUSTIÇA SOCIAL

Publicado em: 26/03/2025

Uma problemática comum quando abordamos cidades. A desconexão entre os avanços tecnológicos nas cidades inteligentes e as reais necessidades das populações vulneráveis, como pessoa idosas e crianças. A expansão de soluções baseadas em dados, sensores e automação não tem sido acompanhada por um alinhamento com os princípios de equidade, acessibilidade e participação cidadã. Essa lacuna é visível em diferentes contextos urbanos e evidencia um desequilíbrio entre inovação tecnológica e justiça urbana. Um exemplo emblemático pode ser observado no estudo de Mathew e Bangwal (2024), que analisa megaprojetos no Golfo, como a Masdar City. Apesar dos investimentos em tecnologias de ponta e da promoção de eficiência energética e mobilidade inteligente, as cidades analisadas mostram fragilidade na inclusão social. A ausência de mecanismos efetivos de participação e de avaliações empíricas sobre os impactos sociais compromete a legitimidade e a sustentabilidade dessas iniciativas. A inovação, nesse contexto, torna-se um instrumento excludente quando não incorpora as demandas reais da população.

Esse problema se repete em diferentes regiões do mundo. Ivan et al. (2024), ao analisarem a experiência das pessoas idosas em Bucareste, destacam que a falta de políticas públicas integradas ao processo de envelhecimento urbano compromete o bem-estar e a participação ativa dessa parcela da população. A pesquisa mostra que a qualidade de vida nas cidades depende de múltiplas dimensões (transporte, moradia, saúde, inclusão digital e participação cívica) que seguem sendo negligenciadas, sobretudo em países da Europa Oriental. Na China, Pan et al. (2024) reforçam essa leitura ao demonstrarem, por meio de um estudo longitudinal, como a infraestrutura urbana afeta diretamente a funcionalidade e a satisfação de vida da população idosa. O conceito de envelhecimento no lugar só se concretiza quando há suporte urbano adequado: acessibilidade, moradias adaptadas, serviços públicos próximos e redes de apoio comunitário. A ausência desses elementos compromete a autonomia e amplia a dependência institucional.

A busca por soluções adaptadas à realidade local aparece nas propostas de Zysk e Zalewska (2024), que desenvolvem uma metodologia para avaliar a caminhabilidade urbana com foco na população 60+, que considera fatores como segurança, tempo de deslocamento e estrutura urbana. Esse esforço se articula com o estudo de Shoina et al. (2024), que analisa a implementação do conceito da cidade de 15 minutos em um bairro de Tessalônica. Ambos os estudos mostram que a proximidade só é eficaz quando acompanhada por inclusão social e participação cidadã no desenho dos territórios.

Outro aspecto negligenciado nos modelos tradicionais de cidades inteligentes é a relação entre crescimento urbano desordenado e colapso ambiental. Ghosh e Sk. (2024) demonstram que a substituição de áreas produtivas e ecológicas por zonas urbanas compactas tem degradado os serviços ecossistêmicos, o que compromete a resiliência das cidades frente às mudanças climáticas. Sem equilíbrio entre uso do solo, produção local e preservação ambiental, a sustentabilidade urbana se torna inviável. No campo da tecnologia e monitoramento urbano, Mathunjwa et al. (2024) propõem o uso de smart meters de baixa resolução como alternativa ética e eficiente para acompanhar padrões de vida da pessoa idosa. A proposta alia inovação com respeito à privacidade, e promover soluções não invasivas com alto potencial de replicabilidade, desde que amparadas por protocolos de consentimento e governança de dados.

A dimensão subjetiva da vida urbana também é destacada por Qu et al. (2024), que propõem a aplicação de imagens artísticas no espaço público como ferramenta de cura visual, que visa contribuir para o bem-estar emocional dos moradores em cidades de alta densidade e ritmo acelerado. Essa abordagem revela a importância do sensível e do estético na construção de ambientes urbanos saudáveis.

Diante desse panorama, torna-se evidente que a presença de tecnologia, por si só, não assegura cidades mais inclusivas, saudáveis ou sustentáveis. Quando descoladas de políticas públicas voltadas à equidade e à participação, essas inovações podem reforçar desigualdades e comprometer o potencial transformador da urbanização. Como solução teórica, Mathew e Bangwal (2024) sugerem um modelo de governança participativa centrada nas pessoas, onde os cidadãos participam desde a formulação até a implementação das políticas urbanas. Ivan et al. (2024) e Pan et al. (2024) reforçam a necessidade de infraestrutura inclusiva, adaptada a uma população diversa e em envelhecimento. Zysk e Zalewska (2024), por sua vez, apresentam a cidade de 15 minutos como uma ferramenta tática, desde que planejada com base em dados locais e recortes intergeracionais. Ghosh e Sk. (2024) alertam para a urgência de integrar a sustentabilidade ecológica como pilar da expansão urbana, enquanto Mathunjwa et al. (2024) defendem o uso ético de tecnologias de monitoramento com foco no bem-estar.

As implicações dessas análises para o futuro das cidades são múltiplas. Em primeiro lugar, o modelo tradicional de cidade inteligente centrado em tecnologia e eficiência precisa evoluir para um paradigma mais amplo, o das cidades sábias, que combinem inteligência digital com inteligência coletiva. Isso exige descentralização de decisões, fortalecimento das redes locais, escuta ativa e inclusão das vozes historicamente invisibilizadas. Em segundo lugar, as cidades precisarão reconhecer o cuidado (com o outro, com o espaço e com o tempo) como elemento estruturante da vida urbana. Isso implica redesenhar serviços públicos, mobilidade, moradias e espaços de convivência com base nas necessidades de crianças, idosos, mulheres e pessoas com deficiência.

Tendências emergentes apontam para uma urbanização mais sensível e situada. Entre elas, destacam-se: a adaptação do conceito de cidade de 15 minutos a contextos diversos e desiguais (Shoina et al., 2024); o uso de tecnologias discretas com protocolos éticos de dados (Mathunjwa et al., 2024); a valorização da saúde mental nos projetos urbanos (Qu et al., 2024); e o fortalecimento de modelos de governança híbrida, com conselhos locais, orçamentos participativos digitais e plataformas colaborativas.

Em termos de agenda científica, futuros estudos podem explorar a caminhabilidade urbana com foco intergeracional (Zysk & Zalewska, 2024), criar indicadores que articulem bem-estar subjetivo e infraestrutura (Pan et al., 2024), investigar o uso ético de tecnologias emergentes (Mathunjwa et al., 2024), analisar os efeitos da estética urbana sobre a saúde mental (Qu et al., 2024), e estudar como incorporar o cuidado como eixo de políticas urbanas. Além disso, adotar uma abordagem interseccional e considerar recortes de gênero, raça, classe e deficiência na formulação de políticas inclusivas. A cidade do futuro deverá ser conectada e relacional. Sua inteligência não estará apenas nos sensores, mas na sua capacidade de escutar, incluir, cuidar e regenerar. A construção dessas cidades exige inovação técnica, sensibilidade política, ética urbana e compromisso coletivo.

Por. Anderson S. Ferreira

Referências

Ghosh, S., & Sk., J. (2024). Impact of changing urban form and production-living-ecological space on changing ecosystem services of a smart city of Eastern India, Durgapur. Environmental Monitoring and Assessment, 196(804). https://doi.org/10.1007/s10661-024-12953-z

Ivan, A. L., Cojocariu, S., & Ghizdeanu, I. (2024). Urban aging and the challenges of senior-friendly cities: Case study from Romania. Cities, 144, 104579. https://doi.org/10.1016/j.cities.2023.104579

Mathunjwa, B. M., Chen, Y.-F., Tsai, T.-C., & Hsu, Y.-L. (2024). A lifestyle monitoring system for older adults living independently using low-resolution smart meter data. Sensors, 24(3662). https://doi.org/10.3390/s24113662

Mathew, D. J., & Bangwal, D. (2024). Smart city governance and innovation stagnation: A study of Gulf megaprojects. Technological Forecasting and Social Change, 198, 122949. https://doi.org/10.1016/j.techfore.2023.122949

Pan, Z., Liu, Y., Liu, Y., Huo, Z., & Han, W. (2024). Age-friendly neighbourhood environment, functional abilities and life satisfaction: A longitudinal analysis of older adults in urban China. Social Science & Medicine, 340, 116403. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2023.116403

Qu, G., Song, Q., & Fang, T. (2024). The artistic image processing for visual healing in smart city. Scientific Reports, 14, 16846. https://doi.org/10.1038/s41598-024-68082-7

Shoina, M., Voukkali, I., Anagnostopoulos, A., Papamichael, I., Stylianou, M., & Zorpas, A. A. (2024). The 15-minute city concept: The case study within a neighbourhood of Thessaloniki. Waste Management & Research, 42(8), 694–710. https://doi.org/10.1177/0734242X241259926

Zysk, E., & Zalewska, K. (2024). The methodology for assessing the 15 minute age-friendly walkability (AFW) of urban public spaces. Sustainability, 16(6406). https://doi.org/10.3390/su16156406


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