PLANEJAMENTO URBANO INCLUSIVO: UM MODELO DE CAPACIDADE DE ACESSIBILIDADE PARA PESSOA IDOSA EM SOCIEDADES EM ENVELHECIMENTO

Publicado em: 07/09/2024

A crescente preocupação com a equidade no transporte tem estimulado um campo de estudo que, historicamente, tende a negligenciar as necessidades específicas de certos grupos sociais, como os idosos. Diante de uma população em envelhecimento, principalmente em países como os Estados Unidos, questões de acessibilidade ganham destaque pela mobilidade física limitada e pelo impacto dessas limitações na qualidade de vida e no bem-estar dos indivíduos mais velhos. O texto analisado traz à tona essa problemática ao abordar as interações entre acessibilidade, transporte e o envelhecimento populacional, propondo um novo modelo teórico que visa preencher essa lacuna: o “Accessibility Capability Framework”.

O artigo parte de um cenário em que, para muitos idosos, possuir um veículo particular é quase essencial para realizar as atividades diárias, especialmente para aqueles que residem em áreas suburbanas ou rurais, onde o transporte público é escasso. No entanto, condições médicas que afetam a visão, mobilidade e cognição frequentemente impedem que esses indivíduos continuem dirigindo à medida que envelhecem. Essa realidade agrava a exclusão social e afeta diretamente a capacidade dos idosos de participar ativamente da vida social e econômica.

É nesse contexto que o conceito de equidade no transporte é discutido. A equidade, nesse caso, é entendida como a capacidade de garantir que todos os indivíduos, independentemente de suas condições socioeconômicas ou de saúde, tenham acesso aos recursos de mobilidade necessários para manter uma boa qualidade de vida. O texto articula a importância de um planejamento urbano e de transportes que vá além da simples mobilidade, focando na acessibilidade como um direito fundamental para a participação ativa na sociedade.

O estudo utiliza uma abordagem interdisciplinar, combinando teorias de planejamento urbano, gerontologia e saúde pública para propor o modelo de "capacidade de acessibilidade". Esse modelo teórico é baseado em conceitos como a "capacidade de saude", derivada das teorias de Amartya Sen e Martha Nussbaum, que foca nas habilidades dos indivíduos de alcançar certos níveis de bem-estar a partir da interação entre fatores individuais e externos, como políticas públicas e o ambiente construído. O objetivo é proporcionar uma estrutura que permita uma compreensão mais profunda das necessidades de transporte dos idosos e guiar a formulação de políticas públicas que atendam a essas demandas de maneira equitativa.

O método adotado no estudo inclui uma revisão crítica da literatura sobre acessibilidade espacial e equidade social, com foco nas oportunidades oferecidas pela interação entre o uso do solo e o sistema de transporte. Além disso, o autor se apoia em dados empíricos que demonstram como a acessibilidade é entendida como a possibilidade de acessar atividades e destinos de forma eficiente e é um determinante importante para a participação ativa dos idosos na vida social e econômica. O texto ainda explora o impacto das mudanças no ambiente construído, como o adensamento urbano e o uso misto de solo, na melhoria da acessibilidade para os idosos. Ao destacar a relação entre qualidade de vida e acessibilidade, o estudo sugere que áreas mais compactas e com maior variedade de serviços e transporte público incentivam os idosos a desistirem de dirigir mais cedo, favorecendo sua participação social por meio de outras formas de mobilidade.

Os resultados do estudo demonstram que a acessibilidade exerce um importante papel na promoção da qualidade de vida dos idosos, especialmente em uma sociedade que enfrenta o envelhecimento populacional. Um dos achados mais relevantes é a importância da equidade no acesso ao transporte, que vai além da simples disponibilidade de veículos ou serviços de transporte público e agrega a proximidade a destinos essenciais, como centros de saúde, áreas comerciais e espaços públicos. O acesso facilitado a esses locais impacta diretamente o bem-estar físico, mental e social dos idosos e ressalta a urgência de integrar políticas de planejamento urbano e transporte com o intuito de aprimorar essas condições.

O modelo de "capacidade de acessibilidade" proposto no estudo é particularmente eficaz ao enfatizar que a acessibilidade deve ser vista como uma capacidade dinâmica e multifacetada. Ela depende de três principais fatores: mobilidade, proximidade e conectividade digital. O conceito de mobilidade refere-se à capacidade dos idosos de se moverem fisicamente de um local para outro, seja por meio de transporte público ou particular. Já a proximidade abrange a distância física entre a residência dos idosos e os locais que eles precisam acessar diariamente. Por fim, a conectividade digital reconhece o papel crescente das tecnologias de comunicação e informação (TICs) na ampliação do acesso a serviços e atividades que, de outra forma, exigiam deslocamentos físicos.

Outro resultado importante é a constatação de que as condições de acessibilidade variam significativamente entre diferentes grupos de idosos, dependendo de fatores socioeconômicos, condições de saúde, localização residencial e nível de familiaridade com tecnologias digitais. A população idoso que vive em áreas suburbanas e rurais, por exemplo, enfrentam desafios mais acentuados de acessibilidade devido à dependência do automóvel e à falta de alternativas de transporte. Além disso, as pessoas idosas de baixa renda ou com menos acesso a TICs têm uma desvantagem adicional em relação aos seus pares mais abastados, o que amplia as disparidades na qualidade de vida e no acesso a oportunidades.

Os dados coletados revelam que, em muitos casos, a simples melhoria da infraestrutura de transporte público não é suficiente para resolver as desigualdades de acessibilidade. Para que essas melhorias sejam eficazes, é necessário promover uma abordagem integrada, que inclua o redesenho de bairros para torná-los mais caminháveis, o incentivo ao uso de tecnologias de transporte sob demanda, como aplicativos de carona, e a criação de políticas de habitação que favoreçam a proximidade dos idosos a serviços essenciais.

Além disso, o estudo destaca o papel das TICs na compensação de algumas limitações físicas associadas ao envelhecimento. O uso da internet, por exemplo, pode ajudar os idosos a realizar atividades como compras, consultas médicas e interações sociais sem precisar sair de casa, minimizando os efeitos da redução da mobilidade. No entanto, o estudo alerta que o "fosso digital" entre as gerações mais velhas ainda é um desafio significativo. Muitas pessoas idosas, especialmente aquelas de baixa renda ou que vivem em áreas rurais, têm pouco ou nenhum acesso a essas tecnologias, o que agrava as barreiras de acessibilidade.

Em termos de contribuições, o estudo oferece uma nova perspectiva teórica que pode ser utilizada para orientar e desenvolver políticas públicas mais inclusivas e eficazes para as pessoas idosas e para outros grupos vulneráveis que enfrentam desafios de acessibilidade. A estrutura proposta tem o potencial de transformar o planejamento urbano e de transportes, ao alinhar questões de saúde pública e justiça social com a acessibilidade, o que proporciona um quadro mais justo para a criação de ambientes urbanos mais amigáveis e acessíveis. Além disso, a pesquisa abre caminhos promissores para estudos futuros. Primeiramente, há a necessidade de testar o "Accessibility Capability Framework" em diferentes contextos urbanos e rurais, a fim de verificar sua aplicabilidade em diversas realidades geográficas e socioeconômicas. Outro ponto que merece atenção é a definição de um nível suficiente de acessibilidade, uma questão ainda pouco explorada de maneira consensual e que pode variar conforme o grupo social e a localização. 

Estudos empíricos que utilizem técnicas de clusterização para identificar padrões de comportamento de viagem entre idosos, como sugerido no estudo, podem fornecer insights valiosos sobre como ajustar as políticas de acessibilidade para diferentes perfis populacionais. O estudo sugere que futuros pesquisadores considerem com mais profundidade as interações entre os vários atores envolvidos no planejamento de acessibilidade e transportes, incluindo profissionais de saúde, planejadores urbanos e engenheiros de transporte. A colaboração entre esses campos é fundamental para desenvolver políticas que possam melhorar a mobilidade e as necessidades mais amplas de saúde e bem-estar da população idosa.

Por: Anderson Saccol Ferreria

Informações do texto: 

LI, S. (ALEX). From transportation equity to accessibility capability: A new framework to guide transportation planning for older people. Journal of planning literature, v. 39, n. 2, p. 241–253, 2024. DOI: 10.1177/08854122231223802 


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