O envelhecimento da população urbana é um fenômeno crescente, com implicações significativas para a gestão das cidades. Atualmente, mais de 43% das pessoas com 65 anos ou mais vivem em áreas urbanas, e esse número deve aumentar nos próximos anos. Este crescimento demográfico traz desafios substanciais, especialmente em um contexto de transição digital acelerada das cidades. Enquanto as tecnologias digitais prometem melhorar a eficiência dos serviços urbanos e a qualidade de vida dos cidadãos, muitos idosos encontram-se excluídos dessas inovações devido à falta de acesso à tecnologia, habilidades digitais limitadas e barreiras de usabilidade. Essa exclusão digital, frequentemente referida como "divisão digital", não só marginaliza os idosos, mas também intensifica as desigualdades sociais existentes. O conceito de ageísmo digital surge nesse contexto, referindo-se à discriminação que os idosos enfrentam no domínio digital, que vai desde a invisibilidade nas políticas digitais até a falta de consideração por suas necessidades específicas em projetos tecnológicos.
Cidades ao redor do mundo estão reconhecendo a necessidade urgente de enfrentar essas questões para criar ambientes urbanos inclusivos e amigáveis para todas as idades. A implementação de estratégias e políticas que promovam a inclusão digital dos idosos é crucial para assegurar que essa população não seja deixada para trás na era digital. O artigo Digital Ageism: Emerging Challenges and Best Practices of Age?Friendly Digital Urban Governance de Olga Kolotouchkina, Mónica Viñarás?Abad e Luis Mañas?Viniegra tem como principal objetivo explorar e compreender os desafios emergentes do ageísmo digital e as melhores práticas de governança urbana digital amigável aos idosos. O estudo visa iluminar as barreiras que os idosos enfrentam no acesso e uso de tecnologias digitais e investigar como as cidades podem promover uma inclusão digital efetiva.
Para atingir esse objetivo, o trabalho foca em três cidades espanholas reconhecidas por suas iniciativas em prol dos idosos: Madrid, Bilbao e Toledo. Por meio de entrevistas semiestruturadas com funcionários públicos dessas cidades, o estudo busca identificar e analisar as abordagens inovadoras adotadas para promover a alfabetização digital, reduzir a exclusão digital e fomentar a participação ativa dos idosos na esfera pública digital. Além disso, o artigo pretende destacar a importância de iniciativas coordenadas por múltiplos stakeholders para superar o ageísmo digital e garantir a inclusão e representação verdadeira dos idosos nos processos de governança local. O estudo revelou várias iniciativas inovadoras e eficazes implementadas por Madrid, Bilbao e Toledo para promover a inclusão digital dos idosos. As principais conclusões de cada cidade são detalhadas abaixo:
Madrid introduziu certificados digitais fáceis de usar para procedimentos administrativos, simplificando o acesso dos idosos a serviços essenciais. Além disso, foi desenvolvido o aplicativo Madrid te acompaña para reduzir a solidão dos idosos, conectando-os a voluntários treinados. A cidade conta com uma rede de centros de dia e bibliotecas públicas que promovem a alfabetização digital por meio de cursos gratuitos de habilidades digitais, incluindo navegação na internet, uso de aplicativos e transações bancárias online. O serviço de teleassistência de Madrid, que atende mais de 115.000 usuários, utiliza ferramentas digitais para promover a interação e o engajamento dos idosos, oferecendo chamadas de vídeo, atividades educativas e entretenimento online.
Bilbao implementou uma estratégia de acessibilidade universal que inclui acesso gratuito ao wi-fi em toda a cidade, com foco em áreas recreativas e bairros periféricos. A plataforma digital Mayores de Bilbao fornece informações e recursos úteis para os idosos. centros oferecem cursos presenciais e online gratuitos que abrangem desde habilidades digitais básicas até competências avançadas em redes sociais, aplicativos de segurança e saúde. Esta iniciativa visa apoiar idosos interessados em iniciar novos negócios ou projetos sociais, oferecendo treinamento em tecnologia digital e promovendo o bem-estar e a independência.
Toledo promove a inclusão digital por meio de programas como Los Mayores Forman la Red, que oferece cursos gratuitos sobre criação de contas de e-mail, videochamadas e administração eletrônica. A cidade oferece um serviço de teleassistência gratuito, disponível 24 horas por dia, que fornece assistência pessoal e resposta a emergências para idosos. Este programa, voltado para pessoas com 55 anos ou mais, promove a alfabetização digital e o uso de tecnologias de comunicação, com mais de 8.000 cidadãos treinados desde seu lançamento.
O estudo se baseou principalmente em entrevistas com funcionários públicos e análise de documentos oficiais, sem incluir diretamente a perspectiva dos próprios idosos que utilizam os serviços digitais. A inclusão de entrevistas com idosos poderia fornecer uma compreensão mais completa dos desafios e das necessidades específicas dessa população. A pesquisa focou em três cidades espanholas, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras regiões ou países com diferentes contextos culturais, econômicos e tecnológicos.
Parte da análise baseou-se em dados secundários, como documentos oficiais e literatura acadêmica, que podem não refletir completamente a experiência prática e as percepções dos usuários finais dos serviços. As iniciativas de inclusão digital podem variar significativamente entre cidades e regiões, dependendo de fatores como orçamento, infraestrutura tecnológica e prioridades políticas. Portanto, os resultados do estudo podem não ser aplicáveis a todas as cidades com desafios similares.
Os resultados do estudo destacam a importância de políticas coordenadas e multifacetadas para promover a inclusão digital dos idosos, envolvendo treinamento digital, acessibilidade universal e suporte tecnológico. Apesar das limitações, as iniciativas analisadas em Madrid, Bilbao e Toledo fornecem exemplos valiosos de como as cidades podem abordar a exclusão digital e criar ambientes urbanos mais inclusivos e amigáveis para todas as idades. Futuras pesquisas que incluam a perspectiva direta dos idosos e expandam a análise para outras regiões podem oferecer insights ainda mais abrangentes e detalhados sobre a eficácia dessas políticas.
Bibliografia
KOLOTOUCHKINA, O.; VIÑARÁS-ABAD, M.; MAÑAS-VINIEGRA, L. Digital ageism: Emerging challenges and best practices of age-friendly digital urban governance. Media and communication, v. 11, n. 3, p. 6–17, 2023.