O crescimento populacional da faixa etária acima dos 60 anos impõe desafios às cidades. Essa realidade exige soluções tecnológicas e abordagens urbanísticas e políticas públicas que assegurem qualidade de vida, saúde e inclusão social da pessoa idoso. Diante disso, uma pergunta se impõe: como tornar as cidades simultaneamente inteligentes e inclusivas para o envelhecimento da população? O conceito de cidade inteligente, embora amplamente difundido como um modelo de eficiência urbana mediado por tecnologias digitais, nem sempre incorpora os princípios de inclusão etária. De acordo com Li e Woolrych (2021), cidades inteligentes muitas vezes falham ao excluir idosos das decisões sobre políticas públicas e dos benefícios gerados pelas inovações urbanas. Ao analisar a cidade de Chongqing, na China, os autores destacam a importância de combinar as agendas de cidades inteligentes com aquelas das cidades amigas da idade para promover inclusão social e bem-estar (Li & Woolrych, 2021).
A proposta da 15-Minute City, que defende o acesso a todos os serviços essenciais em um raio de 15 minutos a pé, representa um avanço no debate. Ulloa-Leon et al. (2023), ao analisarem a cidade de Santiago do Chile, demonstraram que o modelo possui potencial para favorecer o envelhecimento ativo e a autonomia das pessoas idosas. No entanto, os autores alertam que persistem desigualdades territoriais, falta de infraestrutura apropriada e barreiras físicas que comprometem a efetividade desse modelo urbano para a população idosa (Ulloa-Leon et al., 2023). Além da acessibilidade territorial, a dimensão psicológica do envelhecimento urbano precisa ser considerada. Li et al. (2022) demonstraram que o uso das ruas influencia diretamente na satisfação psicológica de pessoas idosas em megacidades. O estudo realizado em Xangai revelou que ruas com vocação residencial (living streets) aumentam a sensação de pertencimento e bem-estar emocional da população idosas. Ou seja, o uso e desenho do espaço público impactam na saúde mental dessa população (Li et al., 2022).
Por outro lado, a tecnologia assistiva vem sendo apontada como uma ferramenta central para promover autonomia e segurança. Thakur e Han (2020) realizaram uma revisão das tecnologias assistivas aplicadas às atividades da vida diária e mostraram que dispositivos como sensores de movimento, assistentes virtuais e sistemas inteligentes domésticos contribuem para o envelhecimento independente. No entanto, os autores alertam para a escassez de políticas integradas que promovam a adoção em larga escala dessas tecnologias, sobretudo em contextos urbanos desiguais (Thakur & Han, 2020). Complementando essa visão, Temeljotov-Salaj e Bogataj (2021) discutem como a gestão de instalações urbanas (Facility Management) em cidades inteligentes pode ser reformulada para garantir serviços de cuidado a longo prazo integrados, monitoramento em tempo real e infraestrutura adaptada ao envelhecimento. Essa reorganização sistêmica é fundamental para dar conta da demanda crescente por serviços personalizados e sustentáveis para a terceira idade (Temeljotov-Salaj & Bogataj, 2021).
No entanto, as implicações sociais e econômicas da adoção de tecnologias em cidades inteligentes suscitam controvérsias. Wang e Zhou (2023) evidenciaram que, na China, investimentos em Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) não estão necessariamente associados a maior satisfação com a vida entre as pessoas idosas. Enquanto o capital humano apresenta impacto positivo na qualidade de vida percebida, a presença massiva de TICs pode aumentar desigualdades e gerar frustração se não houver capacitação e acessibilidade (Wang & Zhou, 2023). Soluções possíveis apontam para uma integração entre infraestrutura urbana, serviços públicos acessíveis e tecnologias orientadas por princípios de justiça social. A incorporação de marcos conceituais como o Smart Age-Friendly Ecosystem (Marston et al., 2020) sugere a criação de ecossistemas híbridos onde tecnologias digitais, espaços físicos e redes sociais se entrelaçam para sustentar o envelhecimento saudável em sociedade. Este modelo inclui componentes como participação social, inclusão digital, mobilidade segura e ambientes adaptáveis, compondo uma visão sistêmica da cidade.
Para futuras pesquisas, recomenda-se aprofundar estudos interdisciplinares que cruzem dados urbanos com métricas de bem-estar físico e mental da pessoa idosa, investigar a eficácia de tecnologias emergentes (como wearables, IA e realidade aumentada) no contexto urbano e desenvolver modelos de co-projetos com a participação ativa da pessoa idosa, de forma a respeitar suas subjetividades e diversidade sociocultural. Também é fundamental incluir indicadores de inclusão social em métricas de avaliação de cidades inteligentes.
Por: Anderson Ferreira
Referências
Li, M., & Woolrych, R. (2021). Experiences of Older People and Social Inclusion in Relation to Smart “Age-Friendly” Cities: A Case Study of Chongqing, China. Frontiers in Public Health, 9, 779913. https://doi.org/10.3389/fpubh.2021.779913
Ulloa-Leon, F., Correa-Parra, J., Vergara-Perucich, F., Cancino-Contreras, F., & Aguirre-Nuñez, C. (2023). “15-Minute City” and Elderly People: Thinking about Healthy Cities. Smart Cities, 6(2), 1043–1058. https://doi.org/10.3390/smartcities6020050
Li, J., Gao, X., Qiu, Y., & Ling, Y. (2022). Aging-friendly cities: Investigating the effects of street usage on the psychological satisfaction of older adults in megacities. Frontiers in Psychology, 13, 942301. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.942301
Thakur, N., & Han, C. Y. (2020). A Review of Assistive Technologies for Activities of Daily Living of Elderly. In S. M. Eckstein (Ed.), Elderly Care (pp. 61–84). Nova Science Publishers.
Temeljotov-Salaj, A., & Bogataj, D. (2021). Application of Assistive Technologies in Smart Cities. In 2021 29th Mediterranean Conference on Control and Automation (MED). IEEE. https://doi.org/10.1109/MED51440.2021.9480281
Wang, M., & Zhou, T. (2023). Does smart city implementation improve the subjective quality of life? Evidence from China. Technology in Society, 72, 102161. https://doi.org/10.1016/j.techsoc.2022.102161
Marston, H. R., Shore, L., & White, P. J. (2020). How does a (Smart) Age-Friendly Ecosystem Look in a Post-Pandemic Society? International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(21), 8276. https://doi.org/10.3390/ijerph17218276