Um problema recorrente nos estudos sobre cidades inteligentes diz respeito à dificuldade de transformar conceitos e estratégias em ações concretas, sobretudo diante da complexidade urbana e da multiplicidade de atores envolvidos (Fernandez-Aneza et al., 2017). A fragmentação entre planejamento, governança e aplicação tecnológica limita o alcance das iniciativas, o que resulta em respostas pontuais e desarticuladas aos desafios urbanos contemporâneos (Bibri, 2021). Embora o conceito tenha evoluído para incorporar dimensões como participação cidadã e sustentabilidade, a ausência de mecanismos integradores ainda compromete sua eficácia na prática (Fernandez-Aneza et al., 2017). As cidades inteligentes enfrentam esses desafios estruturando-se como ecossistemas urbanos adaptativos, nos quais tecnologias digitais, planejamento participativo, governança colaborativa e políticas públicas orientadas por dados se articulam para promover sustentabilidade, resiliência e inclusão social (Bibri, 2021; Carramiñana et al., 2024). Essa abordagem exige uma governança integrada e participativa, na qual governos, setor privado, universidades e sociedade civil atuam conjuntamente, com compromissos compartilhados de longo prazo (Fernandez-Aneza et al., 2017; Ruohomaa et al., 2019).
O caso de Viena exemplifica os desafios enfrentados na implementação de estratégias de cidades inteligentes, isto é, à conexão entre diretrizes estratégicas amplas e a execução de projetos concretos. A diversidade de atores envolvidos no processo decisório inclui governo, empresas, centros de pesquisa e sociedade civil, gera complexidade na coordenação e dificulta a aplicação efetiva da estratégia (Fernandez-Aneza et al., 2017). A análise destaca que somente por meio do alinhamento entre os objetivos estratégicos, os projetos em execução e os stakeholders envolvidos é possível construir um modelo de decisão mais eficaz, coerente e orientado por resultados concretos (Fernandez-Aneza et al., 2017). Dessa forma, a governança colaborativa e a integração entre diferentes níveis de ação são condições essenciais para que a cidade inteligente se torne uma prática consistente e replicável (Fernandez-Aneza et al., 2017).
Além disso, o uso da tecnologia é reposicionado: não como um fim em si, mas como um meio para enfrentar os desafios urbanos. A aplicação de big data, internet das coisas, inteligência artificial e gêmeos digitais permite monitorar e antecipar e otimizar processos urbanos (Bibri, 2021; White et al., 2021). Cidades inteligentes se tornam, assim, laboratórios vivos orientados por dados, onde decisões são informadas por evidências e simuladas previamente, como demonstrado nos estudos sobre gêmeos digitais aplicados ao planejamento urbano participativo (White et al., 2021). Outro aspecto fundamental é a resiliência urbana. Frente a riscos complexos como pandemias, eventos climáticos extremos ou ciberataques , modelos híbridos de simulação ajudam a prever impactos, mensurar vulnerabilidades e testar estratégias de mitigação com maior precisão (Carramiñana et al., 2024). A cidade passa a ser concebida como um sistema adaptativo, com infraestrutura crítica interdependente e sensível a decisões sistêmicas.
No campo social, o desafio da urbanização acelerada e desigual impõe a necessidade de políticas urbanas inclusivas. Estudos recentes propõem soluções orientadas à equidade territorial, com foco em grupos vulneráveis como pessoas idosas, pessoas com deficiência e moradores de áreas periféricas (Delgado-Enales et al., 2023; Woo et al., 2023; Xiong et al., 2024). A aplicação de modelos de otimização multiobjetivo para promover acessibilidade, como rampas e painéis acústicos, ou à consideração da topografia em cidades montanhosas para ampliar o alcance dos deslocamentos a pé entre pessoas idosas, mostra como é possível adaptar as soluções ao território e à população (Delgado-Enales et al., 2023; Xiong et al., 2024). Cidades inteligentes demonstram capacidade de reconversão funcional e aproveitamento de recursos existentes. A transformação de quiosques de testagem da COVID-19 em estações móveis de serviços comunitários exemplifica como é possível dar novos usos a infraestruturas ociosas, o que gera impactos diretos na vida cotidiana dos cidadãos (Wu et al., 2024). Essa prática reduz custos, evita desperdícios e amplia o acesso a serviços básicos, sobretudo em comunidades com menor infraestrutura instalada.
As experiências em cidades de menor porte mostram que o avanço em direção à inteligência urbana não está restrito aos grandes centros. Pequenas cidades podem protagonizar inovações por meio de projetos-piloto, parcerias institucionais e ecossistemas colaborativos, alinhando estratégias locais aos princípios da cidade inteligente (Ruohomaa et al., 2019). Os desafios da urbanização nas cidades inteligentes são enfrentados por meio da articulação entre tecnologia, dados, participação cidadã e transformação institucional. Trata-se de abandonar soluções isoladas e construir plataformas integradas de ação urbana, baseadas na cooperação, adaptabilidade e inclusão, capazes de promover transformações estruturais e sustentáveis no ambiente urbano.
Referências
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Carramiñana, D., Bernardos, A. M., Besada, J. A., & Casar, J. R. (2024). Towards resilient cities: A hybrid simulation framework for risk mitigation through data-driven decision making. Simulation Modelling Practice and Theory, 133, 102924. https://doi.org/10.1016/j.simpat.2024.102924
Delgado-Enales, I., Del Ser, J., & Molina-Costa, P. (2023). A framework to improve urban accessibility and environmental conditions in age-friendly cities using graph modeling and multi-objective optimization. Computers, Environment and Urban Systems, 102, 101966. https://doi.org/10.1016/j.compenvurbsys.2023.101966
Fernandez-Aneza, V., Fernández-Güell, J. M., & Giffinger, R. (2017). Smart City implementation and discourses: An integrated conceptual model. The case of Vienna. Cities, 78, 4–16. https://doi.org/10.1016/j.cities.2017.12.004
Ruohomaa, H., Salminen, V., & Kunttu, I. (2019). Towards a Smart City Concept in Small Cities. Technology Innovation Management Review, 9(9), 5–16. https://doi.org/10.22215/timreview/1263
White, G., Zink, A., Codeca?, L., & Clarke, S. (2021). A digital twin smart city for citizen feedback. Cities, 110, 103064. https://doi.org/10.1016/j.cities.2020.103064
Woo, J., Ko, R., Yu, R., Chan, S., Lo, R., & Mo, K. H. (2023). Healthy ageing should be a key component of ageing in place: Case study from Hong Kong. International Journal of Environmental Research and Public Health, 20(10), 5779. https://doi.org/10.3390/ijerph20105779
Wu, J., Luo, W., Chen, J., Lin, R., & Lyu, Y. (2024). Sustainable development in old communities in China—Using redesigned nucleic acid testing booths for community-specific needs. Sustainability, 16(3), 1099. https://doi.org/10.3390/su16031099
Xiong, R., Zhao, H., & Huang, Y. (2024). Spatial heterogeneity in the effects of built environments on walking distance for the elderly living in a mountainous city. Travel Behaviour and Society, 34, 100693. https://doi.org/10.1016/j.tbs.2023.100693