Com o avanço do envelhecimento populacional e a emergência do paradigma das “cidades amigas das pessoas idosas” promovido pela OMS, diversas cidades têm adotado políticas com o intuito de promover envelhecimento ativo, acessibilidade e inclusão. Contudo, é legítimo perguntar: as cidades estão, de fato, se tornando ambientes acessíveis, equitativos e significativos para todas as pessoas idosas ou há uma reprodução de desigualdades estruturais que marginalizam parte significativa dessa população? O ideal das “age-friendly cities” parte do pressuposto de que o ambiente urbano pode e deve ser estruturado para favorecer a saúde, a participação social e a segurança das pessoas idosas (Buffel, Phillipson & Scharf, 2012). Porém, o modelo aplicado frequentemente desconsidera as disparidades sociais, étnicas, econômicas e de mobilidade que estruturam o envelhecimento nas cidades contemporâneas (Côté-Boucher et al., 2024).
Li (2024) propõe um deslocamento conceitual do paradigma de mobilidade para o de acessibilidade, com foco na “capacidade de acessibilidade”, um constructo que incorpora condições de saúde, localização residencial e acesso tecnológico, sobretudo para populações idosas em áreas suburbanas e rurais. Essa mudança teórica permite enxergar que políticas universais podem não atender à diversidade de necessidades entre os idosos, especialmente os mais vulneráveis. No mesmo sentido, Barrett & McGoldrick (2013) mostram que o envelhecimento ativo é profundamente condicionado por desigualdades socioespaciais, como a precariedade habitacional, o racismo institucional e a violência urbana. Tais fatores atuam como barreiras à participação e à autonomia, de forma a minar o discurso de envelhecimento ativo. Bennetts et al. (2020) adicionam outra camada: a importância da ambiência térmica no envelhecimento em casa. Com base em perfis térmicos “thermal personalities”, os autores evidenciam a heterogeneidade das estratégias de conforto, e dessa forma propõem diretrizes específicas de projeto para pessoas idosas que vivem de forma independente.
A tecnologia, embora promissora, precisa ser integrada com responsabilidade. Bryant et al. (2017) destacam o uso de tecnologias IoT em Birmingham para identificar sinais precoces de fragilidade, mas alertam para o desafio da privacidade e da aceitação pelos usuários. A mera introdução de sensores e dados não substitui o envolvimento ativo das pessoas idosas na coprodução das soluções. Estudos como o de Che et al. (2024) demonstram empiricamente que a percepção de uma cidade amiga está mediada pelas atitudes subjetivas frente ao envelhecimento. Ou seja, não basta a infraestrutura ser “amigável” se não houver um ambiente simbólico e cultural que valorize o envelhecimento.
A partir das contribuições analisadas, delineiam-se ações para tornar as cidades mais verdadeiramente inclusivas para as pessoas idosas. Primeiramente, destacam-se as políticas de acessibilidade equitativa, com foco nas capacidades das pessoas e não apenas na infraestrutura física (Li, 2024). Em segundo lugar, é essencial implementar mapeamentos participativos com pessoas idosas que vivem em áreas periféricas e vulneráveis e utilizam como método de diagnóstico urbano e escuta ativa (Barrett & McGoldrick, 2013; Buffel et al., 2012). Além disso, recomenda-se o desenvolvimento de diretrizes de projeto urbano e habitacional que levem em conta perfis térmicos e comportamentais específicos da população idosa, de forma a respeitar sua heterogeneidade (Bennetts et al., 2020).
Outro ponto relevante é a incorporação de tecnologias de monitoramento com atenção à ética, privacidade e coprodução com os próprios usuários idosos (Bryant et al., 2017). Soma-se a isso a necessidade de promoção de atitudes positivas frente ao envelhecimento, por meio de campanhas culturais e intergeracionais que desconstituam estigmas (Che et al., 2024). Por fim, destaca-se a importância de avaliações contínuas do grau de “amigabilidade” das cidades, e assim utilizar instrumentos validados e sensíveis à diversidade de experiências (Dikken et al., 2020).
As implicações dessas ações apontam para um desafio central: as políticas urbanas voltadas ao envelhecimento enfrentam um abismo entre o ideal normativo e a realidade vivida por diferentes grupos de idosos. A ênfase exclusiva em soluções infraestruturais, sem o devido reconhecimento das desigualdades sociais, tende a gerar políticas inócuas ou até mesmo excludentes. Assim, a construção de cidades verdadeiramente amigas das pessoas idosas exige uma abordagem interseccional, participativa e sensível às diferenças culturais, sociais e econômicas.
Em termos de agenda futura, destacam-se alguns caminhos de investigação que podem aprofundar o tema. É fundamental examinar a eficácia das tecnologias voltadas ao apoio da autonomia em comunidades periféricas, bem como compreender os impactos da urbanização desigual sobre as experiências do envelhecimento. Também é necessário desenvolver indicadores que captem a interseccionalidade de classe, gênero e etnia, além de conduzir avaliações longitudinais para mensurar os efeitos de políticas age-friendly sobre diferentes coortes etárias ao longo do tempo. Esses estudos são cruciais para orientar intervenções mais justas, eficazes e contextualizadas.
Por: Anderson Ferreira
Referências
Barrett, G., & McGoldrick, C. (2013). Narratives of (in)active ageing in poor deprived areas of Liverpool, UK. International Journal of Sociology and Social Policy, 33(5/6), 347–366.
Bennetts, H., Martins, L. A., van Hoof, J., & Soebarto, V. (2020). Thermal Personalities of Older People in South Australia: A Personas-Based Approach to Develop Thermal Comfort Guidelines. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(22), 8402.
Bryant, N., Spencer, N., King, A., Crooks, P., Deakin, J., & Young, S. (2017). IoT and Smart City Services to Support Independence and Wellbeing of Older People. Birmingham City Council.
Buffel, T., Phillipson, C., & Scharf, T. (2012). Ageing in urban environments: Developing ‘age-friendly’ cities. Critical Social Policy, 32(4), 597–617.
Che, S. L., Lei, W. I., Hung, T., & Leong, S. M. (2024). Attitudes to ageing mediates the relationship between perception of age-friendly city and life satisfaction among middle-aged and older people in Macao. BMC Geriatrics, 24(362). https://doi.org/10.1186/s12877-024-04961-y
Chapon, P.-M. (2011). Le programme “Ville-amie des aînés” soulève la question de la gouvernance, de la coordination et de l’organisation des territoires. Gérontologie et société, 9(2), 151–155.
Côté-Boucher, K., Daly, T., Chivers, S., Braedley, S., & Hillier, S. (2024). Counter-narratives of active aging: Disability, trauma, and joy in the age-friendly city. Journal of Aging Studies, 68, 101205.
Del Barrio, E., Marsillas, S., Buffel, T., Smetcoren, A.-S., & Sancho, M. (2018). From Active Aging to Active Citizenship: The Role of (Age) Friendliness. Social Sciences, 7(8), 134.
Dikken, J., van den Hoven, R. F. M., van Staalduinen, W. H., Hulsebosch-Janssen, L. M. T., & van Hoof, J. (2020). How Older People Experience the Age-Friendliness of Their City: Development of the Age-Friendly Cities and Communities Questionnaire. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(18), 6867.
Li, S. (2024). From Transportation Equity to Accessibility Capability: A New Framework to Guide Transportation Planning for Older People. Journal of Planning Literature, 39(2), 241–253. https://doi.org/10.1177/08854122231223802