CIDADES INTELIGENTES: SOLUÇÃO SUSTENTÁVEL OU RÓTULO TECNOCRÁTICO?

Publicado em: 09/04/2025

O conceito de cidade inteligente tornou-se um rótulo utilizado por diferentes atores públicos e privados, carregado por promessas de inovação, eficiência e sustentabilidade urbana. Mas, afinal, o que é uma cidade inteligente? A resposta não é única nem simples, pois envolve múltiplas dimensões e interesses. A cidade inteligente pode ser vista como aquela que investe em capital humano e social, em infraestrutura tradicional e moderna de TICs, com vistas ao desenvolvimento sustentável e à melhoria da qualidade de vida (Caragliu et al. 2011). Já para a União Internacional de Telecomunicações – UIT (2014), uma cidade inteligente e sustentável é aquela que, de forma inovadora, utiliza tecnologias de informação e comunicação e outros meios para melhorar a qualidade de vida, a eficiência dos serviços urbanos e a competitividade, de forma a atender às necessidades das gerações presentes e futuras, com respeito aos aspectos econômicos, sociais e ambientais.

A adoção generalizada e acrítica do termo cidade inteligente tem sido objeto de críticas em diversos estudos. O conceito, inicialmente vinculado às cidades digitais, evoluiu ao longo do tempo, e incorporou dimensões econômicas e políticas que modificaram seu escopo original (Hepworth, 1990). O discurso tecnocrático associado ao modelo atual levanta preocupações sobre sua instrumentalização em favor da acumulação de capital, em detrimento de objetivos como justiça social e ambiental (Hollands, 2008). Esse viés é identificado como alinhado às dinâmicas do neoliberalismo urbano e amplia desigualdades sob o pretexto da inovação (Glasmeier; Christopherson, 2015; Wiig, 2016).

Nesse contexto, a pergunta que se impõe é: as cidades inteligentes são de fato sustentáveis e inclusivas ou apenas reforçam desigualdades sob uma nova roupagem digital? A resposta depende do modelo adotado e da forma como a tecnologia é integrada às políticas públicas e às práticas urbanas. As cidades verdadeiramente inteligentes e sustentáveis devem articular formas urbanas sustentáveis, planejamento estratégico e tecnologias emergentes, como big data e computação contextual, de modo a promover uma abordagem integrada e adaptada às especificidades de cada território (Bibri; Krogstie, 2017). Muitos modelos existentes de avaliação da inteligência urbana não consideram as necessidades específicas, os recursos e as prioridades de cada cidade, o que compromete sua aplicabilidade contextual (Al-Nasrawi et al., 2015). Em resposta a essa limitação, foi proposto um modelo conceitual multidimensional que integra atributos sustentáveis e inteligentes, que buscam superar a superficialidade de abordagens fundamentadas exclusivamente na infraestrutura tecnológica (Al-Nasrawi et al., 2015).

Essa discussão mostra que o rótulo cidade inteligente pode funcionar tanto como uma ferramenta de transformação quanto como um slogan político vago. Seu real valor está em como os elementos de inovação tecnológica, governança, participação cidadã e sustentabilidade se articulam na prática urbana (Nam, Pardo, 2011; Moon, Norris, 2005). Ao invés de buscar uma definição única e fechada, é mais produtivo tratar o conceito como um campo de disputa e construção, onde tecnologia, política e sociedade se entrelaçam de forma dinâmica. Além das definições e controvérsias conceituais, os estudos sobre cidades inteligentes apresentam constatações quanto à sua implementação, limitações e capacidade de transformação. Um aspecto recorrente é a dissociação entre o discurso institucional e a prática efetiva, com ênfase em soluções tecnológicas imediatistas que desconsideram aspectos estruturais de inclusão e sustentabilidade (De Jong et al., 2015). Tal cenário reforça as críticas sobre a reprodução de lógicas tecnocráticas e excludentes, em que o crescimento econômico impulsionado pela digitalização se sobrepõe à busca por equidade urbana (Söderström et al., 2014).

Outro achado relevante refere-se à desigualdade no acesso e nos impactos das inovações digitais. Estudos empíricos apontam que os benefícios das tecnologias são distribuídos de forma assimétrica nas cidades e favorecendo populações de maior renda e regiões mais conectadas (Glasmeier; Christopherson, 2015). Essa dinâmica amplia o risco de aprofundamento da exclusão digital e social, sobretudo nas periferias urbanas, contrariando o princípio de equidade previsto nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Algumas contribuições avançam no sentido de modelos mais integradores e sensíveis ao contexto, de forma a propor abordagens que reconhecem a complexidade e a especificidade de cada território. Um exemplo é o modelo multidimensional de avaliação, que incorpora indicadores econômicos, ambientais, tecnológicos, sociais e institucionais para aferir a inteligência urbana não apenas pela infraestrutura de dados, mas por sua capacidade de promover bem-estar, sustentabilidade e governança participativa (Al-Nasrawi et al., 2015).

No campo teórico, destaca-se a proposta de desenvolvimento de marcos conceituais que aproximem os conceitos de cidade inteligente e cidade sustentável, que superam visões fragmentadas ou excessivamente centradas na tecnologia. Essa integração demanda articular formas urbanas sustentáveis, planejamento estratégico e tecnologias emergentes, como big data e inteligência artificial, como suporte à formulação de decisões urbanas mais equitativas e adaptativas (Bibri; Krogstie, 2017). Quanto aos estudos futuros, a literatura aponta lacunas importantes. Há carência de modelos avaliativos que considerem realidades de países em desenvolvimento e contextos periféricos. A maioria dos estudos ainda está centrada em cidades do Norte Global, o que limita a aplicabilidade dos referenciais em realidades distintas (Bibri; Krogstie, 2017). Ademais, há necessidade de aprofundar os impactos sociais e éticos da digitalização urbana, especialmente quanto à proteção de dados, vigilância, e transparência algorítmica.

Outra frente de discussão relevante diz respeito ao papel dos cidadãos nas dinâmicas das cidades inteligentes. A literatura aponta que sua efetividade depende do fortalecimento da governança colaborativa e da coprodução de soluções urbanas, reconhecendo o protagonismo dos habitantes nos processos decisórios e de inovação (Moon, Norris, 2005; Nam, Pardo, 2011). Nessa perspectiva, uma cidade só pode ser considerada verdadeiramente inteligente se também for democrática, receptiva às demandas locais e aberta à experimentação cidadã. Assim, a cidade inteligente deve ser concebida não como um fim em si mesma, mas como um meio para reorganizar o espaço urbano em direção à justiça social, à sustentabilidade e à inclusão. Esse entendimento demanda um redirecionamento do foco: a tecnologia deve deixar de ser tratada como solução universal e passar a ser compreendida como ferramenta subordinada a objetivos maiores de equidade, bem-estar coletivo e cidadania ativa.

Por: Anderson Saccol Ferreira

Referências

Al-Nasrawi, S., Adams, C., & El-Zaart, A. (2015). A conceptual multidimensional model for assessing smart sustainable cities. Journal of Information Systems and Technology Management, 12(3), 541-558. https://doi.org/10.4301/S1807-17752015000300003

Bibri, S. E., & Krogstie, J. (2017). Smart sustainable cities of the future: An extensive interdisciplinary literature review. Sustainable Cities and Society, 31, 183–212. https://doi.org/10.1016/j.scs.2017.02.016

Caragliu, A., Del Bo, C., & Nijkamp, P. (2011). Smart cities in Europe. Journal of Urban Technology, 18(2), 65–82. https://doi.org/10.1080/10630732.2011.601117

De Jong, M., Joss, S., Schraven, D., Zhan, C., & Weijnen, M. (2015). Sustainable–smart–resilient–low carbon–eco–knowledge cities; Making sense of a multitude of concepts promoting sustainable urbanization. Journal of Cleaner Production, 109, 25–38.

Glasmeier, A., & Christopherson, S. (2015). Thinking about smart cities. Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, 8(1), 3–12.

Hepworth, M. (1990). Geography of the information economy. Belhaven Press.

Hollands, R. G. (2008). Will the real smart city please stand up? Intelligent, progressive or entrepreneurial? City, 12(3), 303–320.

Moon, M. J., & Norris, D. F. (2005). Does managerial orientation matter? The adoption of reinventing government and e-government at the municipal level. Information Systems Journal, 15(1), 43–60.

Nam, T., & Pardo, T. A. (2011). Conceptualizing smart city with dimensions of technology, people, and institutions. In Proceedings of the 12th Annual International Digital Government Research Conference: Digital Government Innovation in Challenging Times (pp. 282–291). https://doi.org/10.1145/2037556.2037602

Söderström, O., Paasche, T., & Klauser, F. (2014). Smart cities as corporate storytelling. City, 18(3), 307–320.

Union Internationale des Télécommunications. (2014). Smart sustainable cities: An analysis of definitions. ITU-T Focus Group Technical Report. Retrieved from https://www.itu.int/itu-t/climatechange

Wiig, A. (2016). The empty rhetoric of the smart city: From digital inclusion to economic promotion in Philadelphia. Urban Geography, 37(4), 535–553.


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