CIDADES INTELIGENTES SÃO REALMENTE SUSTENTÁVEIS E INCLUSIVAS? UM OLHAR SOBRE A LITERATURA

Publicado em: 02/04/2025

A intensificação da urbanização em escala global tem exposto os complexos desafios da gestão urbana, sobretudo quando se busca conciliar crescimento econômico com justiça social e sustentabilidade ambiental. Nesse cenário, as cidades inteligentes surgem como alternativa contemporânea ao propor a integração de tecnologias digitais como a Internet das Coisas (IoT), computação em nuvem e sistemas ciberfísicos. No entanto, uma leitura crítica da literatura científica revela semelhanças significativas entre estudos que questionam a efetividade desse modelo, principalmente quanto à inclusão social, sustentabilidade real e mecanismos democráticos de governança.

Um ponto recorrente entre os autores refere-se à crítica ao caráter tecnocrático que predomina nas propostas de cidades inteligentes. Ainda que associadas a discursos de inovação e sustentabilidade, tais abordagens frequentemente encobrem contradições entre metas econômicas, ambientais e sociais (Bibri; Krogstie, 2016). A percepção de que tecnologias como IoT e big data são soluções neutras e universalmente benéficas é contestada, pois essas ferramentas, ao invés de mitigar desigualdades, podem agravá-las ao reforçar dinâmicas excludentes. Essa crítica ganha força ao se observar casos concretos como os projetos de Lavasa, Rajarhat e Dholera na Índia, que, mesmo alinhados formalmente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, adotam uma lógica de urbanismo neoliberal voltada à valorização do capital e da estética, desconsiderando a pluralidade cultural e os impactos socioambientais nas populações afetadas (Chowhan et al., 2022). Nesse sentido, o rótulo de "cidade inteligente" funciona muitas vezes como justificativa para intervenções urbanas elitistas e descoladas das necessidades reais da maioria dos cidadãos.

Sob a perspectiva tecnológica, os artigos analisados convergem na identificação de três pilares principais: o uso intensivo de sensores para coleta de dados em tempo real, a aplicação de algoritmos de aprendizado de máquina e mineração de dados para previsões urbanas, e o suporte de infraestruturas baseadas em computação em nuvem e de borda (Khan et al., 2014). Apesar das possibilidades que essas ferramentas oferecem, há desafios relevantes quanto à interoperabilidade dos sistemas, à padronização de dados, à cibersegurança e à garantia de inclusão digital, principalmente em cidades marcadas por desigualdades estruturais. Adicionalmente, os estudos destacam a importância de ampliar a compreensão do que se entende por cidade inteligente. A proposta não deve se limitar à automação e conectividade, mas sim englobar a capacidade do ambiente urbano de responder de forma sensível às necessidades de seus habitantes, promovendo equidade socioambiental e participação cidadã efetiva (Puliafito et al., 2021). A cidade, enquanto sistema ciberfísico, requer não apenas sensores e algoritmos, mas também estruturas de governança transparentes e adaptáveis.

Essa reflexão crítica se estende ao uso de sistemas preditivos. A análise de trajetos de visitantes em museus, por exemplo, mostra como o uso de cadeias de Markov e técnicas de machine learning pode gerar informações estratégicas, mas alerta para a importância de considerar o contexto social em que os dados são produzidos, evitando interpretações automatizadas e descontextualizadas (Piccialli et al., 2020). Frente a essas evidências, é necessário questionar os rumos da urbanização orientada por tecnologias digitais. A atratividade das cidades inteligentes não pode ser medida apenas pela presença de sensores ou pela capacidade de processamento de dados, mas sim por sua aptidão para construir territórios mais justos, inclusivos e ambientalmente equilibrados. A inovação urbana só será legítima se alicerçada em princípios éticos e políticos que valorizem o conhecimento local, a diversidade cultural e a participação ativa dos cidadãos em suas múltiplas dimensões. Sem esse compromisso, o risco é de reproduzir modelos de cidade tecnicamente avançados, mas socialmente frágeis e democraticamente limitados. Assim, mais do que novos dispositivos, as cidades do futuro exigem novas formas de pactuação coletiva em torno do bem comum.

Por Anderson Ferreira

Referências

Bibri, S. E., & Krogstie, J. (2016). On the social shaping dimensions of smart sustainable cities: A study in science, technology, and society. Sustainable Cities and Society, 29, 219–246. https://doi.org/10.1016/j.scs.2016.11.004

Chowhan, G., Sen, A., & Mukherjee, J. (2022). Sustainable and ‘smart’ restructuring around the making of mega and world-class cities in India: A critical review. GeoJournal, 87(S4), S897–S910. https://doi.org/10.1007/s10708-022-10644-1

Khan, Z., Kiani, S. L., & Soomro, K. (2014). A framework for cloud-based context-aware information services for citizens in smart cities. Journal of Cloud Computing: Advances, Systems and Applications, 3(14), 1–17. https://doi.org/10.1186/s13677-014-0014-4

Piccialli, F., Cuomo, S., Giampaolo, F., Casolla, G., & Schiano di Cola, V. (2020). Path prediction in IoT systems through Markov Chain algorithm. Future Generation Computer Systems, 109, 210–217. https://doi.org/10.1016/j.future.2020.03.053

Puliafito, A., Tricomi, G., Zafeiropoulos, A., & Papavassiliou, S. (2021). Smart cities of the future as cyber physical systems: Challenges and enabling technologies. Sensors, 21(10), 3349. https://doi.org/10.3390/s21103349


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