O envelhecimento populacional é um fenômeno global que desafia as cidades a se adaptarem para atender às necessidades de seus cidadãos mais velhos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas do Idoso em 2010 para incentivar a criação de ambientes urbanos que promovam a saúde, participação e segurança dos idosos. Haia, na Holanda, membro ativo desta rede desde 2015, tem implementado várias políticas para tornar a cidade mais amigável para os idosos. O estudo A multi-year quantitative study of the experienced age-friendliness in The Hague: A tale of four personas conduzido por Joost van Hoof, Willeke H. van Staalduinen e Jeroen Dikken. estudo examina como essas políticas foram percebidas pela população idosa de Haia ao longo dos anos, especialmente durante a pandemia de COVID-19, utilizando um método quantitativo robusto para avaliar mudanças e identificar subgrupos com diferentes percepções de amigabilidade. O objetivo principal deste estudo é avaliar as mudanças na percepção de amigabilidade urbana entre os idosos de Haia entre 2020 e 2022 e identificar subgrupos de idosos com diferentes percepções sobre a cidade. O estudo visa fornecer insights detalhados sobre as necessidades específicas desses subgrupos para informar e direcionar futuras políticas públicas mais eficazes.
Para entender como os idosos de Haia percebem a amigabilidade urbana, o estudo seguiu um desenho transversal com duas medições, realizadas em 2020 e 2022. Utilizando o Age Friendly Cities and Communities Questionnaire (AFCCQ), foram coletados dados de 396 idosos residentes em Haia, abrangendo oito domínios de amigabilidade definidos pela OMS, além de um domínio financeiro adicional. A pesquisa foi realizada em Haia, uma cidade dividida em oito distritos: Laak, Haagse Hout, Loosduinen, Ypenburg-Leidschenveen, Scheveningen, Segbroek, Centrum e Escamp. Foram selecionados aleatoriamente 396 idosos (65 anos ou mais) a partir de um banco de dados municipal. A amostra foi estratificada por gênero, idade, tipo de moradia e background imigrante para garantir representatividade. O instrumento de coleta de dados foi o AFCCQ, um questionário validado de 23 itens que utiliza escalas Likert de 5 pontos para medir a satisfação em cada domínio. Comparações entre os dados de 2020 e 2022 foram feitas usando estatísticas descritivas e o teste Mann-Whitney U. Além disso, a análise de clusters hierárquica e k-means foi utilizada para identificar e descrever quatro personas distintas com base nas respostas dos participantes.
Os resultados revelaram que a percepção dos idosos sobre a amigabilidade de Haia manteve-se estável entre 2020 e 2022. A pontuação total do AFCCQ indicou que, em geral, os idosos estão satisfeitos com a amigabilidade urbana. No entanto, durante a pandemia de COVID-19, houve uma diminuição significativa na participação social, refletindo as dificuldades enfrentadas pelos idosos em manterem-se socialmente ativos devido às restrições impostas pela pandemia. Por outro lado, a pontuação para Respeito e Inclusão Social aumentou significativamente durante o mesmo período, possivelmente devido à menor exposição dos idosos a situações de ageísmo durante os lockdowns.
Através da análise de clusters, foram identificadas quatro personas distintas entre os idosos de Haia:
Precariado com Problemas de Saúde: Este grupo, composto por 113 pessoas, apresentou as menores pontuações em quase todos os domínios, caracterizando-se por recursos financeiros limitados e alta incidência de condições crônicas.
Pessoas com Problemas de Saúde Moderados: Incluindo 126 pessoas, este grupo apresentou baixas pontuações principalmente em Espaços Externos e Edifícios, e Transporte. É composto majoritariamente por mulheres, com alta proporção de indivíduos com condições crônicas e que utilizam auxílio para mobilidade.
Majoritário Silencioso: Com 343 pessoas, este grupo apresentou pontuações moderadamente positivas em todos os domínios. Caracteriza-se por uma boa saúde relativa e uma percepção equilibrada da cidade.
Elite Superior: Este grupo, composto por 133 pessoas, apresentou as pontuações mais altas em todos os domínios. Caracteriza-se por boa saúde, alta escolaridade e estabilidade financeira.
Essas descobertas sublinham a importância de desenvolver políticas públicas específicas que atendam às diversas necessidades dos diferentes grupos de idosos. Políticas "one-size-fits-all" podem não ser eficazes, pois não abordam as particularidades dos grupos mais vulneráveis, como o "Precariado com Problemas de Saúde" e as "Pessoas com Problemas de Saúde Moderados", que necessitam de maior suporte financeiro e melhores condições de saúde e mobilidade. Por outro lado, políticas que mantenham a qualidade de vida para os grupos mais saudáveis e financeiramente estáveis (Majoritário Silencioso e Elite Superior) também são essenciais para sustentar o bem-estar geral dos idosos na cidade.
O estudo conduzido por van Hoof et al. apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas. Primeiramente, a amostra utilizada, embora representativa, foi restrita a uma única cidade, Haia, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras cidades com diferentes contextos urbanos, culturais e socioeconômicos. Além disso, o estudo utilizou um desenho transversal, o que permite a análise em dois pontos no tempo, mas não capta plenamente as mudanças dinâmicas e contínuas na percepção dos idosos sobre a amigabilidade urbana. Outra limitação é a dependência do questionário AFCCQ, que, apesar de validado, pode não capturar todas as nuances da experiência dos idosos, especialmente aquelas relacionadas a fatores qualitativos que exigem métodos de pesquisa mais profundos.
Com base nessas limitações, recomenda-se que estudos futuros ampliem a investigação para incluir múltiplas cidades, possibilitando uma comparação entre diferentes contextos urbanos e a identificação de padrões comuns e variações locais. Além disso, seria benéfico adotar um desenho longitudinal, acompanhando os mesmos indivíduos ao longo do tempo para captar mudanças contínuas e oferecer uma compreensão mais detalhada da evolução das percepções de amigabilidade. A inclusão de métodos qualitativos, como entrevistas em profundidade e grupos focais, também é recomendada para complementar os dados quantitativos e enriquecer a compreensão das experiências subjetivas dos idosos.
As contribuições deste estudo são significativas tanto para a academia quanto para a formulação de políticas públicas. Ao identificar quatro personas distintas entre os idosos de Haia, o estudo oferece um modelo útil para segmentar a população idosa com base em suas necessidades específicas, permitindo o desenvolvimento de políticas públicas mais direcionadas e eficazes. A análise detalhada das percepções de amigabilidade em diferentes domínios fornece insights valiosos sobre áreas que necessitam de melhorias, como participação social e espaços externos. Além disso, ao destacar o impacto da pandemia de COVID-19 nas percepções de amigabilidade, o estudo contribui para a literatura sobre como eventos globais podem afetar as experiências de grupos vulneráveis. Essas contribuições são cruciais para orientar intervenções futuras e promover cidades mais inclusivas e amigáveis para todas as idades.
Bibliografia
VAN HOOF, J.; VAN STAALDUINEN, W. H.; DIKKEN, J. A multi-year quantitative study of the experienced age-friendliness in The Hague: A tale of four personas. Social science & medicine (1982), v. 340, n. 116362, p. 116362, 2024.