As cidades inteligentes emergiram como paradigmas cruciais para enfrentar os desafios urbanos contemporâneos, integrando tecnologia, governança e práticas sustentáveis para melhorar a qualidade de vida e reduzir impactos ambientais. A interseção entre urbanização e sustentabilidade ambiental ganhou proeminência, refletindo um esforço coletivo para transformar centros urbanos em habitats mais eficientes e menos prejudiciais ao meio ambiente. Este cenário é evidenciado pelo crescente volume de literatura científica que explora o conceito de cidades inteligentes, com um foco particular nas suas dimensões ambientais.
No entanto, dada a vastidão e a complexidade das pesquisas publicadas, há uma necessidade crescente de metodologias que possam sintetizar e analisar criticamente essas contribuições. A cienciometria surge como uma ferramenta valiosa neste contexto, permitindo uma análise quantitativa e qualitativa da produção científica. Este artigo propõe um estudo cienciométrico para analisar a evolução da produção científica relacionada ao meio ambiente em cidades inteligentes ao longo dos últimos 13 anos. A pesquisa visa identificar tendências e lacunas na literatura, oferecendo uma visão geral e orientações sobre os rumos das pesquisas nesse campo. Esta análise é justificada pelo aumento contínuo da produção acadêmica sobre o tema e a necessidade de sintetizar conhecimentos dispersos para melhor entender os desafios enfrentados pelas cidades contemporâneas.
Utilizou-se a base de dados Scopus para realizar uma revisão cienciométrica. A estratégia de busca incluiu uma combinação de palavras-chave relacionadas à evolução, indicadores e eficiência das cidades inteligentes, e aspectos do meio ambiente. A busca foi limitada aos documentos publicados entre 2011 e 2023, optando-se por artigos e conferências com um mínimo de 20 citações para assegurar a relevância do material analisado. Foram selecionados 2.241 artigos para leitura de títulos e resumos, resultando na escolha de 126 artigos diretamente alinhados com o tema da pesquisa. A análise cienciométrica foi auxiliada por softwares como o Bibliometrix e o CiteSpace, permitindo a avaliação da distribuição geográfica das pesquisas, a interação entre autores e instituições, e as tendências em periódicos e citações. Este método detalhado garante uma abordagem rigorosa e sistemática para compreender as contribuições e o desenvolvimento do campo de estudo sobre cidades inteligentes e sua interação com o meio ambiente, refletindo não apenas a quantidade mas também a qualidade e o impacto das pesquisas realizadas globalmente.
A pesquisa identificou um total de 11.629 trabalhos na base de dados Scopus, dos quais 9.901 foram filtrados para o período de 2011 a 2023 após a aplicação dos critérios de seleção. A análise revela um crescimento significativo no número de publicações ao longo dos anos, refletindo um interesse crescente pelo tema. O maior número de publicações ocorreu entre 2017 e 2023, com taxas de crescimento anual chegando a 18,92%. A análise das citações mostrou uma distribuição variada, onde alguns artigos alcançaram um alto número de citações, sugerindo seu impacto e relevância na comunidade acadêmica. Por exemplo, o artigo mais citado, "Smart Cities in Europe", recebeu 1.930 citações, evidenciando uma forte influência na pesquisa subsequente.
A pesquisa destacou uma extensa rede de colaboração internacional, com a Itália, Espanha e China sendo os países mais ativos na publicação e colaboração. Essas colaborações estão frequentemente associadas a estudos multicêntricos que contribuem para a evolução do campo. Instituições como a Universiti Teknologi Malaysia e a Universitas Sebelas Maret (Indonésia) foram identificadas como as mais produtivas, indicando centros de pesquisa ativos e influentes no estudo de cidades inteligentes relacionadas ao meio ambiente. A análise revelou que periódicos como "Journal of Urban Technology", "Cities", e "Sustainable Cities and Society" são frequentemente escolhidos para a publicação de estudos sobre cidades inteligentes e meio ambiente, refletindo sua relevância e prestígio na área. Periódicos com altos fatores de impacto, como "Journal of Cleaner Production" e "Energy", também se destacaram, indicando que os trabalhos publicados nessas revistas tendem a ser de alta qualidade e grande impacto.
As palavras-chave mais frequentes incluíram "smart city", "sustainable development", e "energy efficiency", apontando para as principais áreas de foco dentro do campo das cidades inteligentes. A recorrência dessas palavras-chave demonstra uma clara orientação para a sustentabilidade e eficiência como temas centrais nas discussões sobre urbanismo inteligente. A análise destacou hotspots de pesquisa emergentes, como o uso de tecnologias de Internet das Coisas (IoT) para proteção ambiental e a integração de soluções baseadas em dados para promover a sustentabilidade ambiental nas cidades inteligentes. Estes resultados fornecem uma compreensão detalhada das dinâmicas de publicação e das tendências predominantes no estudo de cidades inteligentes e sua relação com o meio ambiente. Eles refletem o estado atual da pesquisa e destacam as áreas que necessitam de maior atenção e desenvolvimento futuro.
A análise cienciométrica realizada no estudo trouxe à luz várias descobertas significativas que ilustram a evolução e o estado atual da pesquisa sobre cidades inteligentes e meio ambiente. Primeiramente, observou-se um crescimento contínuo e notável na quantidade de pesquisas dedicadas a este tópico, refletindo um interesse crescente e sublinhando a relevância cada vez maior dessa área de estudo. Este aumento indica uma consciência ampliada sobre a importância de integrar tecnologias inteligentes nas estratégias de desenvolvimento urbano sustentável. Além disso, a pesquisa destacou uma forte tendência para a interdisciplinaridade, com uma colaboração internacional robusta que atravessa fronteiras geográficas e disciplinares. Países e instituições líderes de várias partes do mundo têm contribuído de maneira significativa, enriquecendo o campo com uma diversidade de conhecimentos e experiências. Esta colaboração internacional não apenas fortalece a qualidade da pesquisa produzida mas também facilita a implementação de soluções inovadoras em escala global.
O foco predominante em temas de sustentabilidade, como desenvolvimento urbano inteligente e eficiência energética, foi outra constatação importante. Essas áreas dominam o campo de estudo, indicando uma clara orientação para abordagens que combinam avanços tecnológicos com práticas sustentáveis para melhorar a eficiência das cidades e reduzir seu impacto ambiental. Tal foco reflete uma resposta aos desafios globais contemporâneos e uma aliança entre inovação tecnológica e responsabilidade ambiental. O estudo mostrou que as publicações em periódicos de alto impacto são predominantes, o que sugere que os trabalhos produzidos são de alta qualidade e possuem um potencial considerável para influenciar práticas e políticas urbanas. A escolha desses periódicos como veículos para divulgar os resultados da pesquisa sobre cidades inteligentes e meio ambiente demonstra a importância e o reconhecimento acadêmico da área, além de reforçar o impacto que esses estudos podem ter no desenvolvimento de políticas públicas eficazes e na promoção de um futuro urbano sustentável.O estudo cienciométrico conduzido enfrenta várias limitações significativas que influenciam a interpretação dos resultados e orientam recomendações para pesquisas futuras. Primeiramente, a análise foi restrita exclusivamente à base de dados Scopus. Embora a Scopus seja amplamente reconhecida como uma das principais bases de dados acadêmicas, a exclusão de outras importantes como a Web of Science ou o Google Scholar pode ter resultando na omissão de trabalhos relevantes que não estão presentes na Scopus.
Com base nas limitações e descobertas do estudo cienciométrico atual, podem-se sugerir várias direções para futuras pesquisas que prometem enriquecer ainda mais nosso entendimento sobre cidades inteligentes e sua interação com o meio ambiente. Uma abordagem que inclua múltiplas bases de dados certamente ampliaria o escopo das análises, capturando uma variedade mais ampla de contribuições acadêmicas e oferecendo uma perspectiva mais abrangente sobre o tema. Isso ajudaria a mitigar a limitação da dependência de uma única fonte de dados, proporcionando um panorama mais diversificado da pesquisa global. Além disso, explorar trabalhos menos citados poderia revelar novos insights e tendências emergentes que estão começando a ganhar atenção na comunidade científica. Essa abordagem poderia descobrir ideias inovadoras e abordagens originais que ainda não alcançaram um amplo reconhecimento, mas que são cruciais para o avanço da área. Estudos longitudinais e de tendências também são fundamentais, pois permitem uma compreensão das mudanças nas direções de pesquisa ao longo do tempo, destacando como as prioridades e os métodos evoluíram.
Expandir a pesquisa para incluir literatura em várias línguas e estudos de regiões geograficamente menos representadas poderia fornecer uma visão mais global e inclusiva sobre as cidades inteligentes. Isso não só diversificaria as perspectivas culturais e contextuais nas pesquisas, mas também promoveria uma compreensão mais holística dos desafios e soluções em diferentes contextos urbanos ao redor do mundo. há uma necessidade clara de incorporar mais pesquisas qualitativas e estudos de casos práticos nas análises. Tais estudos poderiam oferecer percepções profundas sobre como as práticas sustentáveis estão sendo implementadas nas cidades inteligentes na prática real. Eles forneceriam exemplos concretos de sucesso e desafios enfrentados, contribuindo significativamente para a literatura com evidências empíricas que poderiam guiar futuras políticas e implementações.
Abordando estas áreas sugeridas, os pesquisadores poderiam fornecer uma visão mais completa e detalhada das dinâmicas e do impacto das cidades inteligentes no ambiente global, potencializando o desenvolvimento de estratégias mais eficazes e sustentáveis para o planejamento urbano moderno.Além disso, a metodologia adotada selecionou apenas artigos e conferências que acumularam um mínimo de 20 citações. Essa escolha pode ter introduzido um viés, excluindo estudos mais recentes ou menos citados que poderiam ser igualmente influentes para o campo. A pesquisa apresentou limitações temporais e linguísticas, concentrando-se em publicações entre 2011 e 2023. Isso pode ter deixado de lado contribuições importantes que predateam esse intervalo. Adicionalmente, a análise focou primariamente em literatura em inglês, negligenciando estudos publicados em outras línguas que poderiam enriquecer os achados. Essas limitações destacam a necessidade de abordagens mais abrangentes em estudos futuros, que incluam diversas fontes de dados, uma gama mais ampla de trabalhos independentemente do número de citações, e uma variedade maior de idiomas.
Por: Anderson S. Ferreira
Referência
FERREIRA, A. S.; GHISI, N. C.; DITZEL, G. S. Inteligentes E Meio Ambiente: Uma Análise Cienciométrica. Anais do XI SINGEP-CIK, UNINOVE. São Paulo, SP, 2023