Almere é uma cidade que não nasceu de processos históricos tradicionais nem de um crescimento espontâneo. Foi projetada e construída a partir do zero, em terras conquistadas do mar, como parte de um ousado plano nacional holandês de expansão urbana e territorial. Localizada na província de Flevoland, a cidade surgiu no final da década de 1970 sobre um polder resultante da drenagem do IJsselmeer, uma área marítima transformada em solo firme após a construção de um grande dique nos anos 1930. Essa obra de engenharia deu origem à maior ilha artificial do mundo, com quase mil quilômetros quadrados, onde se consolidou a proposta de criar uma cidade que funcionasse como laboratório urbano flexível, experimental e adaptável às demandas do futuro (Miller, 2022).
Desde o início, Almere foi pensada como uma solução à pressão habitacional de Amsterdã e Utrecht, cidades próximas que enfrentavam saturação demográfica e preços elevados de moradia. O projeto foi inspirado nos ideais das cidades-jardim de Ebenezer Howard (1902), que buscavam equilíbrio entre áreas verdes, habitação, equipamentos públicos e transporte coletivo. Essa influência é perceptível no desenho urbano inicial, que privilegiava espaços amplos, mobilidade e contato com a natureza. Contudo, Almere avançou para além da teoria clássica: transformou-se em um laboratório de inovação, onde diferentes modelos de arquitetura, governança e sustentabilidade puderam ser testados (Berg, 2007).
Um dos exemplos mais conhecidos é o bairro Homeruskwartier. Ali, mais de 1,5 mil famílias tiveram a oportunidade de construir suas próprias casas, sem seguir o modelo padronizado das incorporadoras. Cada família podia escolher o projeto, materiais e formas arquitetônicas, resultando em um mosaico de estilos que valoriza a diversidade e a identidade individual (Miller, 2022). A proposta rompeu com a lógica tradicional de grandes empreendimentos e mostrou que a autoconstrução, quando bem regulada, pode ser um caminho para cidades mais plurais. No Brasil, onde boa parte da moradia popular surge de forma informal e precária, esse modelo serve como inspiração para integrar criatividade, participação e infraestrutura urbana de qualidade.
Outro bairro emblemático é Regenboogbuurt, conhecido como Bairro Arco-Íris. Projetado na década de 1990, ele ficou famoso pelo uso de cores vibrantes em fachadas residenciais, contrastando com a homogeneidade cromática típica dos conjuntos habitacionais. Já em De Fantasie, a proposta foi radicalizar ainda mais a liberdade criativa: os moradores não podiam usar fundações tradicionais e foram incentivados a criar soluções arquitetônicas inovadoras. O resultado foi um conjunto único de habitações que hoje atrai turistas e pesquisadores interessados em novas linguagens urbanas (Miller, 2022).
Além da estética, Almere também se destacou pelo pioneirismo em habitação social de qualidade. Em Almere Poort, famílias com renda anual inferior a 20 mil euros tiveram acesso a moradias acessíveis em áreas com bosques, praias e espaços comunitários. Esse modelo contrasta com a prática de muitos países, incluindo o Brasil, onde habitação social muitas vezes significa repetição de unidades padronizadas, afastadas do centro e sem integração com o espaço urbano (Tellinga, 2015). Em Almere, a dignidade habitacional foi tratada como elemento central, vinculando inclusão social e qualidade ambiental.
Outro marco da cidade é Oosterwold, distrito planejado com 60% do território destinado à agricultura urbana. Nesse espaço, os moradores têm responsabilidade direta pelo cultivo de alimentos e pela manutenção da área, em um modelo que combina sustentabilidade, produção local e governança participativa. Para estruturar essa experiência, a arquiteta Ekim Tan desenvolveu em 2009 o Play the City, um jogo que simula decisões urbanísticas em ambiente interativo, permitindo que cidadãos negociem soluções sobre transporte, energia, habitação e alimentação (Tan, 2017). Trata-se de um exemplo de governança colaborativa que vai além das tradicionais consultas públicas, transformando os moradores em agentes ativos da cidade.
No campo ambiental, Almere se tornou referência internacional ao propor soluções resilientes para os desafios climáticos. O bairro Almere Pampus, previsto para os próximos anos, contará com cerca de 500 casas flutuantes, antecipando os efeitos da elevação do nível do mar e transformando a vulnerabilidade hídrica em oportunidade de inovação (Ahvenniemi et al., 2017). Essa aposta em urbanismo anfíbio já influencia discussões em cidades costeiras do mundo inteiro, que precisam encontrar respostas diante das mudanças climáticas.
Apesar dos avanços, há críticas. Pesquisadores apontam que Almere apresenta largas avenidas e distâncias que podem incentivar o uso do automóvel, criando contradições em relação à sustentabilidade (Tellinga, 2015). Contudo, outros autores defendem que essa imperfeição faz parte da força da cidade: sua condição “inacabada” permite constantes ajustes e abre espaço para incorporar novas demandas sociais, tecnológicas e ambientais (Berg, 2007). Ao contrário do urbanismo modernista, que buscava soluções definitivas e totalizantes, Almere se mostra como um organismo em permanente transformação. Assim, Almere não é uma cidade, mas um laboratório vivo que testa caminhos para o futuro urbano. A diversidade arquitetônica, a governança colaborativa e as soluções ambientais inovadoras fazem dela uma referência global. Para o Brasil, as lições são claras: é preciso investir em modelos flexíveis, que aliem participação cidadã, inclusão social e sustentabilidade, reconhecendo que as cidades, mais do que obras acabadas, são processos em constante construção.
Arquitetura da experimentação e participação cidadã
Um dos aspectos mais emblemáticos do projeto urbano de Almere está na forma como a cidade se tornou um verdadeiro laboratório de experimentação arquitetônica e de participação cidadã. Desde os anos 1980, a cidade abriu espaço para que moradores e arquitetos desenvolvessem projetos habitacionais fora do padrão tradicional, criando condições para um ambiente urbano marcado pela diversidade estética e pela autonomia dos cidadãos (Miller, 2022). O bairro Homeruskwartier exemplifica bem esse processo. Localizado em Almere Poort, ele foi planejado como um espaço onde famílias poderiam projetar e construir suas próprias casas, rompendo com a lógica das grandes incorporadoras imobiliárias. A liberdade de escolha arquitetônica e funcional resultou em um bairro heterogêneo, que expressa a identidade de seus habitantes. Segundo Tan (2017), esse tipo de iniciativa materializa a ideia de governança urbana colaborativa, na qual o cidadão deixa de ser mero receptor de políticas públicas e passa a atuar como cocriador do espaço urbano.
Outro marco foi o projeto De Fantasie (1982-1984), que lançou um concurso com regras inusitadas: as construções deveriam ser experimentais, não poderiam usar fundações convencionais e precisariam ser erguidas em um período limitado. O resultado foi uma coleção de casas singulares, reconhecidas como ícones da arquitetura experimental europeia (Berg, 2007). Essas iniciativas revelam como Almere conseguiu transformar restrições em oportunidades, estimulando soluções criativas que hoje atraem arquitetos, pesquisadores e estudantes do mundo todo. Além da arquitetura construída, a participação cidadã também se deu por meio de metodologias inovadoras de governança. Uma delas foi o uso do jogo urbano Play the City, que reuniu moradores, planejadores e gestores em dinâmicas interativas para decidir coletivamente os rumos da cidade. Conforme explica Tan (2017), a experiência lúdica ampliou o alcance da participação, criando espaços de negociação mais inclusivos do que os processos tradicionais de consulta pública.
Esse caráter experimental e participativo de Almere contrasta fortemente com muitas realidades urbanas brasileiras. Enquanto em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro a autoconstrução ocorre de forma precária e à margem das políticas públicas, em Almere ela foi institucionalizada como prática legítima de inovação urbana. Nesse sentido, o caso mostra que a autoconstrução, quando apoiada por regulamentação adequada e infraestrutura pública, pode ser instrumento de sustentabilidade e de democratização do espaço (Miller, 2022). A arquitetura da experimentação e a participação cidadã em Almere não representam apenas um modelo estético, mas um paradigma de urbanismo inclusivo. Como observa Miller (2022), Almere revela que as cidades do futuro podem ser moldadas a partir da criatividade coletiva, onde políticas urbanas se abrem para a inovação, e os cidadãos são protagonistas na construção de espaços mais diversos, resilientes e humanos.
Projeções para o futuro: clima, sustentabilidade e cidades resilientes
Ao analisar o caso de Almere, é inevitável projetar reflexões sobre o futuro das cidades diante dos efeitos climáticos e dos desafios de sustentabilidade. O aumento da população urbana, previsto para chegar a 70% da população mundial até 2050 (ONU-Habitat, 2020), pressiona os sistemas urbanos a se adaptarem a cenários cada vez mais complexos. As cidades, responsáveis por cerca de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa, precisam repensar radicalmente suas formas de planejar, construir e gerir os territórios (IPCC, 2021). Nesse sentido, Almere oferece pistas, pois seu modelo de urbanismo experimental e participativo já se conecta com demandas contemporâneas de sustentabilidade. A cidade busca integrar áreas verdes, estimular modos de transporte ativo e valorizar construções inovadoras que utilizam menos recursos naturais. Como observa Bibri e Krogstie (2017), o futuro das cidades inteligentes deve estar fundamentado na “convergência entre inovação tecnológica, sustentabilidade ecológica e inclusão social”. Almere antecipa essa tendência ao explorar novos formatos de moradia, governança e gestão urbana.
As projeções climáticas para o século XXI indicam maior frequência de eventos extremos ondas de calor, enchentes, secas e tempestades (IPCC, 2021). Cidades planejadas de maneira tradicional, com ênfase apenas na eficiência técnica e econômica, mostram-se pouco resilientes diante dessas transformações. Almere, ao contrário, investe em soluções adaptativas: bairros construídos em ilhas artificiais, sistemas de drenagem baseados na natureza e urbanismo flexível que permite ajustes ao longo do tempo (Miller, 2022). Tais soluções dialogam com o conceito de “nature-based solutions” defendido pela União Europeia (European Commission, 2020), que propõe integrar a infraestrutura urbana com ecossistemas naturais para mitigar riscos e promover bem-estar. Outra projeção importante é o impacto da sustentabilidade energética. A transição para energias renováveis e a busca pela neutralidade de carbono até 2050, meta estabelecida pelo Acordo de Paris (UNFCCC, 2015), exigem que cidades incorporem tecnologias de eficiência energética, mobilidade elétrica e sistemas inteligentes de gestão de recursos.
Almere já experimenta práticas nessa direção, como projetos de habitação com painéis solares e soluções de reutilização de materiais, transformando-se em um laboratório vivo para futuros modelos urbanos (Miller, 2022). O futuro das cidades também precisa enfrentar desigualdades socioespaciais. Como destaca Ahvenniemi et al. (2017), a sustentabilidade urbana só se torna efetiva quando combina indicadores ambientais, sociais e econômicos. No Brasil, onde a urbanização acelerada produziu bolsões de exclusão e precariedade, o exemplo de Almere pode inspirar políticas públicas que integrem inovação arquitetônica, participação cidadã e justiça social. Projetar o futuro das cidades, portanto, significa considerar o impacto do clima, a urgência da sustentabilidade e a necessidade de reinventar modelos de governança. Almere nos mostra que não se trata apenas de aplicar tecnologias, mas de construir cidades vivas, resilientes e abertas à criatividade dos cidadãos. Essa abordagem pode orientar novos caminhos para que metrópoles latino-americanas enfrentem os efeitos climáticos sem abrir mão de inclusão e qualidade de vida.
Referências
AHVENNIEMI, H.; HUOVILA, A.; PINTO-SEPPÄ, I.; AIRAKSINEN, M. What are the differences between sustainable and smart cities? Cities, v. 60, p. 234–245, 2017.
BERG, J. J. Adolescent Almere: idealen, ambities, durf en experimenten. Amsterdam: International New Town Institute, 2007.
BERG, L. van den. Urban innovation in the Netherlands: The case of Almere. Rotterdam: Erasmus University Press, 2007.
BIBRI, S. E.; KROGSTIE, J. Smart sustainable cities of the future: An extensive interdisciplinary literature review. Sustainable Cities and Society, v. 31, p. 183–212, 2017.
EUROPEAN COMMISSION. Nature-based solutions. Brussels: Publications Office of the European Union, 2020.
HOWARD, E. Garden Cities of To-morrow. London: S. Sonnenschein & Co., 1902.
IPCC. Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
MILLER, N. Almere, o laboratório urbano inovador na Holanda que pode inspirar as cidades do futuro. BBC News Brasil, 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-61092890. Acesso em: 18 ago. 2025.
ONU-HABITAT. World Cities Report 2020: The Value of Sustainable Urbanization. Nairobi: UN-Habitat, 2020.
TAN, E. Negotiation and Design for the Self-Organizing City: Gaming as a Method for Urban Design. Cham: Springer, 2017.
TAN, E. Play the City: Games Informing Urban Development. Delft: TU Delft Press, 2017.
TELLINGA, J. Lessons from Almere: Free choice and spatial quality. Delft: Delft University of Technology, 2015.
UNFCCC. Paris Agreement. New York: United Nations, 2015.