A relação entre o ambiente urbano e a saúde mental e cognitiva tem sido objeto de crescente interesse na pesquisa em neurociência. O artigo intitulado " Cities and neuroscience research: A systematic literature review" oferece uma análise abrangente das investigações nesse campo, destacando as descobertas e as direções para pesquisas futuras. A revisão sistemática examinou uma ampla gama de estudos no total 62 artigos que exploraram como a exposição a ambientes urbanos, sejam eles construídos ou naturais, pode influenciar a função cerebral.
No que diz respeito às pesquisas baseadas na ressonância magnética funcional (fMRI), o estudo identificou que a exposição a ambientes naturais tende a estar associada a um aumento na atividade do córtex pré-frontal, uma região relacionada ao controle da atenção e ao processamento cognitivo. Em contraste, a exposição a ambientes construídos resulta em uma maior atividade no córtex parietal, que está ligado ao processamento espacial e à mudança de atenção. Essas descobertas sugerem que o ambiente urbano pode influenciar a função cerebral de maneiras distintas.
Além disso, os estudos que empregaram a espectroscopia no infravermelho próximo (fNIRS) em configurações internas e externas apresentaram resultados intrigantes. Quando os participantes foram expostos a ambientes naturais, houve um aumento na atividade cerebral no córtex pré-frontal, associado a funções cognitivas superiores. No entanto, a exposição a ambientes construídos resultou em uma maior atividade no córtex parietal, que está envolvido na atenção espacial e na mudança de foco. Essas descobertas indicam que ambientes naturais podem promover um melhor funcionamento cognitivo em comparação com ambientes construídos.
No entanto, ressaltam a necessidade premente de investigações adicionais para uma compreensão mais profunda dos mecanismos neurais subjacentes a esses efeitos, bem como para identificar possíveis fatores moderadores que possam influenciar a relação entre ambientes urbanos e o funcionamento cerebral. Além disso, os autores destacam as limitações presentes nos estudos revistos, incluindo a diversidade de metodologias e medidas utilizadas, a ausência de uma padronização na definição de ambientes urbanos e a possível interferência de diferenças individuais e outros fatores ambientais.
Os autores sugerem que as futuras pesquisas devem se concentrar em abordar as limitações dos estudos revisados, como o uso de diferentes metodologias e medidas, a falta de padronização na definição de ambientes urbanos e os potenciais efeitos de confusão de diferenças individuais e outros fatores ambientais. Eles apontam que as futuras pesquisas devem adotar uma abordagem mais interdisciplinar, envolvendo colaborações entre neurocientistas, planejadores urbanos, arquitetos e outros especialistas. Os autores propõem várias questões de pesquisa específicas que poderiam ser abordadas em estudos futuros, como:
Como as diferenças individuais na personalidade, estilo cognitivo e outros fatores influenciam a relação entre ambientes urbanos e a função cerebral? Quais são os efeitos de longo prazo da exposição a ambientes urbanos na saúde cerebral e no envelhecimento cognitivo? Como o design e o planejamento urbanos podem ser otimizados para promover a saúde cerebral e o bem-estar? Quais são os mecanismos neurais subjacentes aos efeitos restauradores da exposição a ambientes naturais e como esses podem ser aproveitados para melhorar os ambientes urbanos? Essas questões de pesquisa destacam a necessidade de investigações futuras que aprofundem nossa compreensão da relação complexa entre ambientes urbanos e função cerebral, assim como melhorar a qualidade de vida nas cidades por meio do planejamento urbano informado pela neurociência.
A revisão sistemática lança luz sobre a complexa relação entre os ambientes urbanos e o cérebro humano. Essas descobertas têm implicações significativas para o planejamento urbano, destacando a importância de criar cidades que promovam a saúde mental e cognitiva de seus habitantes. O futuro da pesquisa nesse campo promissor reside na colaboração interdisciplinar e na busca contínua por uma compreensão mais profunda dos efeitos do ambiente urbano sobre a função cerebral.
Os estudos revisados oferecem valiosos insights sobre a relação entre ambientes urbanos e a função cerebral, enfatizando a necessidade de colaborações interdisciplinares para abordar os desafios complexos da urbanização e da saúde cerebral. Os autores ressaltam a importância de traduzir as descobertas da pesquisa em políticas baseadas em evidências e intervenções que promovam a saúde cerebral e o bem-estar nos ambientes urbanos. Eles sugerem que o design urbano e o planejamento podem ser otimizados para promover a saúde cerebral, incorporando características como espaços verdes, elementos naturais e ambientes propícios à circulação de pedestres. O campo do neurourbanismo tem o potencial de contribuir para o desenvolvimento de cidades mais saudáveis e sustentáveis, e que a continuação das pesquisas nesse campo é essencial para enfrentar os desafios complexos da urbanização e da saúde cerebral.
Por Anderson Ferreira
Referência
ANCORA, Leonardo A.; BLANCO-MORA, Diego Andrés; ALVES, Inês; et al. Cities and neuroscience research: A systematic literature review. Frontiers in psychiatry, v. 13, 2022. Disponível em: http://dx.doi.org/10.3389/fpsyt.2022.983352.